
“Decidi pesquisar de forma aprofundada sobre checagem de fatos durante a pandemia, havia muita desinformação sobre vacinas e isso gerou um dano à população”, lembra Tamiris Volcean, formada em Jornalismo pela Unesp, em Bauru, em 2017. O objetivo de combater as fake news também era importante para Mateus Santos, egresso de Ciências da Computação pelo mesmo câmpus, e juntos eles criaram a “AletheiaFact.org” em 2020.
Desde então, o projeto foi finalista, em 2025 e 2026, do prêmio internacional “WSIS Prizes” da Organização das Nações Unidas (ONU), ficando entre os 20 selecionados internacionais na categoria “Acesso à Informação e Conhecimento”. A iniciativa também ampliou suas atividades com a criação do “Comitê Nacional de Democratização da Checagem de Fatos” no ano passado.
O pontapé inicial para criação da Aletheia foi a participação de Mateus Santos em um evento do Mozilla OpenLab em junho de 2020, que incentivava desenvolvedores a criar projetos de código aberto. “Ele teve essa ideia da plataforma de checagem de fatos com uma perspectiva tecnológica e, como nós nos conhecemos na Unesp, ele entrou em contato comigo para que eu testasse o projeto. Só que durante minha formação eu não tive um aprendizado aprofundado sobre checagem de fatos, apenas uma noção”, conta Tamiris, que ficou motivada em apoiar a iniciativa devido a desinformação durante a pandemia.
Se dedicar e estudar mais sobre um tema é uma habilidade da egressa, uma vez que, além de jornalista, ela é pesquisadora. Tamiris concluiu o mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCom - Unesp) em 2019 e um doutorado em Literatura Brasileira pela USP em 2025.
Para aprender sobre o assunto, a egressa se candidatou e foi selecionada em uma residência do “Projeto Comprova” em 2021. Essa iniciativa é liderada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e tem a participação de jornalistas de 42 veículos de comunicação, com foco em combater a desinformação e as fake news.
Tamiris Volcean e Mateus Santos, criadores do “Aletheia” - palavra oriunda do grego antigo, significa “verdade" ou “revelação do que está oculto”. Imagem: divulgação
“Quando retornei, construímos o manual de checagem da Aletheia e decidimos que seria uma plataforma tecnológica e um movimento para o combate à desinformação via democratização da checagem de fatos. Assim, começamos a atuar enquanto uma organização do terceiro setor e conseguimos um CNPJ m 2021. Dessa forma, tínhamos uma estrutura para receber voluntários e estagiários”, ressalta a egressa.
Formação continuada aos estudantes de Jornalismo
A partir do contato com os estudantes nas atividades do projeto, Tamiris percebeu que diversas faculdades de Jornalismo não possuem, de forma geral, uma disciplina voltada para checagem de fatos e há uma lacuna na formação dos estudantes.
“Assim, desenvolvemos um convênio com a Unesp desde 2023, todos os semestres recebemos cinco alunos dos anos finais de Jornalismo para estagiar no Aletheia com checagem de fatos. Também oferecemos capacitações e oficinas nas universidades. Percebemos que os estudantes eram um público com muito potencial, por ainda estarem em formação, mas entendemos que era preciso capacitar os docentes, para que sejam multiplicadores da nossa metodologia. Para isso, criamos o Comitê Nacional de Democratização da Checagem de Fatos em 2025 e estamos com 120 membros”, explica a egressa.
Hoje o comitê reúne docentes, profissionais e pesquisadores das cinco regiões do Brasil e também da Universidade da Beira Interior em Portugal. “Estamos com duas oficinas em andamento no momento, com a Universidade Federal da Paraíba e com a Universidade Federal do Tocantins. Todas as capacitações da Aletheia são gratuitas, mas um dos requisitos para receber a capacitação na instituição de ensino é que o docente solicitante seja membro do nosso comitê”, ressalta.
Relação com a Unesp
Tamiris conta que escolheu Jornalismo devido ao caráter interdisciplinar do curso, pois tinha interesses diversos. Ela conta que encontrou apoio na universidade para desenvolver ideias diferentes, como uma Iniciação Científica voltada para a Literatura. A ex-aluna ressalta que poder transitar entre diversas áreas e atividades foi importante para desenvolver autonomia e traçar caminhos que não estavam previstos, como a criação da Aletheia.
“Já estive em outras universidades, mas tenho um perfil muito unespiano. Eu acho que a Unesp tem um uma particularidade que é a questão da comunidade acadêmica. A minha formação me proporcionou uma transformação socioeconômica, oportunidades de conhecer outros países, fazer pesquisa, ter um título e algo muito relevante que foi me inserir nessa comunidade, que ainda faz toda diferença em qualquer decisão que eu tome”, conclui a ex-aluna.